Comecei a pensar no poder indecifrável das suas palavras e
gestos do homem Jesus para convencer jovens judeus, na flor da
idade, malucos por aventuras, com famílias nucleares organizadas
e negócios estabelecidos, a abandonar tudo para segui-lo. Que
loucura! Seguiram no escuro um homem sem poder político
notório e sem identidade visível. Deixaram barcos, amigos, casas e
o seguiram sem direção. Ele não lhes deu dinheiro, não lhes deu
conforto, não lhes prometeu nem mesmo um reino terreno. Que
experiência arriscada! Que conflitos! Que vexames! Que
perturbações viveram!
Perderam tudo, por fim perderam o homem que os ensinou a
amar crucificado numa trave de madeira. Morreu sem heroísmo,
morreu em silêncio, encerrou seu fôlego amando, faleceu
perdoando. Após sua morte, o grupo poderia ter se dissipado, mas
uma força incompreensível os invadiu. Tornaram-se mais fortes
depois do caos. Difundiram para o mundo a mensagem que
tinham ouvido.
Deram as lágrimas, a saúde, seu tempo, enfim, tudo o que
tinham para a humanidade. Amaram desconhecidos e se
entregaram por eles. Sob a mensagem difundida por esses jovens
toscos e sem cultura clássica, as sociedades européias e depois
inúmeras outras nas Américas, na África e na Ásia foram
construídas. As bases dos direitos humanos e dos valores sociais
foram estabelecidas.
Séculos se passaram, e tudo se tornou comum. As igrejas se
tornaram uma fonte excelente de conformismo. Na atualidade,
centenas de milhões de pessoas comemoram confortavelmente em
seus templos o Natal, a Paixão e outras datas, sem nunca terem
imaginado o que é dormir ao relento, o que é receber a pecha de
louco, qual o sabor de ter sua imagem social estilhaçada. Perderam
a sensibilidade, não entenderam o estresse dramático que esses
jovens viveram ao seguirem o enigmático Mestre dos Mestres.
Vieram-me à mente as desconfortáveis camas de palha nas
quais dormiam ao relento. Fiquei refletindo na angústia que
sofreram ao tentar explicar o inexplicável para seus pais e amigos
da Galiléia. Não poderiam falar que tinham aprendido a amar um
homem, pois seriam apedrejados. Não poderiam dizer que estavam
envolvidos num grande projeto, porque esse projeto não era
palpável. Não podiam comentar que seguiam um homem poderoso,
o Messias, pois ele amava o anonimato. Que coragem para chamar
e que coragem para seguir o chamado!